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domingo, 6 de setembro de 2015

O Anel de Vidro...

Aquele pequenino anel que tu me deste, 
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou… 
Assim também o eterno amor que prometeste, 
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou. 
Frágil penhor que foi do amor que me tiveste, 
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, 
– Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou… 
Não me turbou, porém, o despeito que investe 
Gritando maldições contra aquilo que amou. 
De ti conservo no peito a saudade celeste… 
Como também guardei o pó que me ficou 
Daquele pequenino anel que tu me deste…

Manuel Bandeira.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O que eu adoro em ti...

O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!

Manuel Bandeira.

domingo, 29 de abril de 2012

Eu gosto de delicadeza...

Eu gosto de delicadeza.
Seja nos gestos,
nas palavras, nas ações,
no jeito de olhar,
no dia-a-dia e até no que
não é dito com palavras,
mas fica no ar.
A delicadeza
amolece até a pessoa
mais bruta do mundo
e disso eu tenho certeza.
Quero a delícia de poder
sentir as coisas mais simples.

 Manuel Bandeira

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Poética...

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira