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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Se Me Esqueceres...

Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda,

sábado, 1 de março de 2014

Tu eras também uma pequena folha...


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Peço Silêncio...

Agora, me deixem tranquilo.

Agora, se acostumem sem mim.

Eu vou fechar os olhos.

E só quero cinco coisas,

cinco fontes preferidas.

Uma é o amor sem fim.

O segundo é ver o outono.

Não posso ser sem que as folhas

vão e voltem a terra.

O terceiro é o grave inverno,

a chuva que amei, a carícia

do fogo no frio silvestre.

Em quarto lugar, o verão

redondo como uma melancia.

A quinta coisa são teus olhos,

Matilde minha, bem-amada,

não quero dormir sem teus olhos,

não quero ser sem que me olhes:

eu mudo a primavera 

porque tu me segues olhando.

Amigos, isso é o que quero.

É quase nada e quase tudo.

Agora, se querem podem ir.

Vivi tanto que um dia

terão que esquecer-me por força,

apagando-me do quadro:

Meu coração foi interminável.

Mas, por que peço silêncio

não creiam que vou morrer-me:

me passa todo o contrário:

acontece que vou viver-me.

Acontece que sou e que sigo.

Não será, pois, só que aqui dentro

de mim cresceram cereais,

primeiro os grãos que rompem

a terra para ver a luz,

mas a mãe-terra é escura:

e dentro de mim sou escuro:

sou como um poço em cujas águas

a noite deixa suas estrelas

e segue só pelo campo.

Se trata de que tanto vivi

que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,

nunca tive tantos beijos.

Agora, como sempre, é cedo.

Voa a luz com suas abelhas.

Deixem-me só com o dia.

Peço permissão para nascer.


Pablo Neruda.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Quem morre?...

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz
com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se
da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda.

domingo, 6 de novembro de 2011

A dança...

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo directamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Se não assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Pablo Neruda