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sábado, 29 de outubro de 2016

Estou cansado...

Estou cansado, é claro 
Estou cansado, é claro, 
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
De que estou cansado, não sei: 
De nada me serviria sabê-lo, 
Pois o cansaço fica na mesma. 
A ferida dói como dói 
E não em função da causa que a produziu. 
Sim, estou cansado, 
E um pouco sorridente 
De o cansaço ser só isto — 
Uma vontade de sono no corpo, 
Um desejo de não pensar na alma, 
E por cima de tudo uma tranquilidade lúcida 
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Alvaro de Campos. 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Hoje Tomei a Decisão de Ser Eu

Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, 
de viver à altura do meu mister, 
e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, 
e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, 
reentrei de vez, de volta da minha viagem 
de impressões pelos outros, 
na posse plena do meu Génio 
e na divina consciência da minha Missão. 
Hoje só me quero tal qual meu carácter nato 
quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, 
me impõe que eu não deixe de ser. 
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, 
a mais alta e a mais calma. 
Pose por pose, a pose de ser o que sou. 
Nada de desafios à plebe, 
nada de girândolas para o riso 
ou a raiva dos inferiores. 
A superioridade não se mascara de palhaço; 
é de renúncia e de silêncio que se veste. 
O último rasto de influência dos outros 
no meu carácter cessou com isto. 
Reconheci — ao sentir que podia 
e ia dominar o desejo intenso e infantil 
de « lançar o Interseccionismo»
 — a tranquila posse de mim. 
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. 
Nasci.


Fernando Pessoa, 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'

domingo, 1 de novembro de 2015

O Amor É uma Companhia...

O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos, 
Porque já não posso andar só. 
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. 
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. 
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. 
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. 
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 
Todo eu sou qualquer força que me abandona. 
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. 

Alberto Caeiro.

sábado, 18 de julho de 2015

Quando Eu não te Tinha...

Quando eu não te tinha 
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo. 
Agora amo a Natureza 
Como um monge calmo à Virgem Maria, 
Religiosamente, a meu modo, como dantes, 
Mas de outra maneira mais comovida e próxima ... 
Vejo melhor os rios quando vou contigo 
Pelos campos até à beira dos rios; 
Sentado a teu lado reparando nas nuvens 
Reparo nelas melhor — 
Tu não me tiraste a Natureza ... 
Tu mudaste a Natureza ... 
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim, 
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma, 
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais, 
Por tu me escolheres para te ter e te amar, 
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente 
Sobre todas as cousas. 
Não me arrependo do que fui outrora 
Porque ainda o sou. 
Só me arrependo de outrora te não ter amado.

Alberto Caeiro.

domingo, 26 de abril de 2015

Acordo de noite...

Acordo de noite subitamente, 
E o meu relógio ocupa a noite toda. 
Não sinto a Natureza lá fora. 
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas. 
Lá fora há um sossego como se nada existisse. 
Só o relógio prossegue o seu ruído. 
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa 
Abafa toda a existência da terra e do céu... 
Quase que me perco a pensar o que isto significa, 
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca, 
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa 
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme 
É a curiosa sensação de encher a noite enorme 
Com a sua pequenez... 

 Fernando Pessoa.

.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Já não me importo...

Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.
E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.

Fernando Pessoa.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Começa hoje o ano...

Nada começa: tudo continua.
Onde estamos, que vemos a passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.
Vêem de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência,
Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna idade.
Precipício de Deus sobre o momento;
Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo e verbo e pensamento.

"Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.

Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento".


Fernando Pessoa.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O que me dói...

O que me dói não é 
O que há no coração 
Mas essas coisas lindas 
Que nunca existirão... 
São as formas sem forma 
Que passam sem que a dor 
As possa conhecer 
Ou as sonhar o amor.
 São como se a tristeza 
Fosse árvore e, uma a uma, 
Caíssem suas folhas 
Entre o vestígio e a bruma. 

Fernando Pessoa.

domingo, 2 de junho de 2013

Quando olho para mim…

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Alvaro de Campos.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Dever de Sonhar...

Eu tenho uma espécie de dever,
dever de sonhar, de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 22 de março de 2013

Feliz quem não exige da vida...

Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto
dos gatos, que buscam o sol quando há sol,
e quando não há sol o calor, onde quer que esteja.
Feliz quem abdica da sua personalidade pela
imaginação, e se deleita na contemplação das vidas
alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espetáculo externo de todas as impressões.
Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem,
porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído.

Do Livro do Desassossego
 Bernardo Soares.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A passagem das horas...

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco
 – não sei qual – e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos,
todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse
querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção,
o choque, a válvula, o espasmo“.

Álvaro de Campos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Futuro...

"Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo...
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
O mistério da morte a mim o liga
Ao brutal fim do meu poema".

Álvaro de Campos.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sentir...

Sentir tudo de todas as maneiras, Viver tudo de todos os lados, Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo. Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo, Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo, Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia, Seja uma flor ou uma idéia abstrata, Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus. E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.”

Álvaro de Campos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Estou cansado...

Estou cansado, é claro, porque, a certa
altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos.

sábado, 22 de setembro de 2012

Aquilo que creio...

Aquilo que, creio,
produz em mim o sentimento profundo,
em que vivo, de incongruência com os outros,
é que a maioria pensa com a sensibilidade,
e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver
e pensar é saber viver.
Para mim, pensar é viver
e sentir não é mais
que o alimento de pensar."

Fernando Pessoa.

domingo, 8 de abril de 2012

Nem sempre sou igual...

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...

Alberto Caeiro.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sou um guardador de rebanhos...

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Fernando Pessoa.

sábado, 17 de setembro de 2011

As bolas de sabão...

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

Alberto Caeiro.

domingo, 8 de maio de 2011

Sou do tamanho do que vejo!

"Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura."
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo. "Sou do tamanho do que vejo!" Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se refletem nele e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objetiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. "Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte. Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvageria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia. Mas recolho-me e abrando-me. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."



Do Livro do Desassossego – Fernando Pessoa.