terça-feira, 5 de julho de 2016

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades. 

Continuamente vemos novidades, 
Diferentes em tudo da esperança,
Do mal, ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem, se algum houve, as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 
Que já coberto foi de neve fria;
E em mim converte em choro o doce canto. 

E, afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía. 

Luís Vaz de Camões, Sonetos

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Se Me Esqueceres...

Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda,

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Soneto Antigo...

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo...

Toda a minha experiência, o meu estudo,
Sou eu mesma que, em solidão paciente,
Recolho  do que em mim observo e escuto,
Muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
Caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento!

Cecília Meireles.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Se tu me cativas...

“...Se tu me cativas,
Minha vida será como cheia de sol.
Conhecerei um barulho de passos
Que será diferente dos outros.
Os outros passos me fazem entrar
debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca,
Como se fosse música.”


Saint Exupery.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Hoje Tomei a Decisão de Ser Eu

Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, 
de viver à altura do meu mister, 
e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, 
e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, 
reentrei de vez, de volta da minha viagem 
de impressões pelos outros, 
na posse plena do meu Génio 
e na divina consciência da minha Missão. 
Hoje só me quero tal qual meu carácter nato 
quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, 
me impõe que eu não deixe de ser. 
Atitude por atitude, melhor a mais nobre, 
a mais alta e a mais calma. 
Pose por pose, a pose de ser o que sou. 
Nada de desafios à plebe, 
nada de girândolas para o riso 
ou a raiva dos inferiores. 
A superioridade não se mascara de palhaço; 
é de renúncia e de silêncio que se veste. 
O último rasto de influência dos outros 
no meu carácter cessou com isto. 
Reconheci — ao sentir que podia 
e ia dominar o desejo intenso e infantil 
de « lançar o Interseccionismo»
 — a tranquila posse de mim. 
Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. 
Nasci.


Fernando Pessoa, 'Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação'

domingo, 1 de novembro de 2015

O Amor É uma Companhia...

O amor é uma companhia. 
Já não sei andar só pelos caminhos, 
Porque já não posso andar só. 
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. 
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. 
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. 
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. 
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. 
Todo eu sou qualquer força que me abandona. 
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. 

Alberto Caeiro.

domingo, 11 de outubro de 2015

Dá-me a tua mão...

Dá-me a tua mão: 
Vou agora te contar 
como entrei no inexpressivo 
que sempre foi a minha busca cega e secreta. 
De como entrei 
naquilo que existe entre o número um e o número dois, 
de como vi a linha de mistério e fogo, 
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, 
entre dois fatos existe um fato, 
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam 
existe um intervalo de espaço, 
existe um sentir que é entre o sentir 
- nos interstícios da matéria primordial 
está a linha de mistério e fogo 
que é a respiração do mundo, 
e a respiração contínua do mundo 
é aquilo que ouvimos 
e chamamos de silêncio

Clarice Lispector.