sábado, 3 de janeiro de 2015

Começa hoje o ano...

Nada começa: tudo continua.
Onde estamos, que vemos a passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.
Vêem de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência,
Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna idade.
Precipício de Deus sobre o momento;
Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo e verbo e pensamento.

"Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.

Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento".


Fernando Pessoa.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Abelha e flor...

"Ide, pois, aos vossos campos e pomares
 e, lá, aprendereis que o prazer da abelha
 é sugar o mel da flor, 
mas que o prazer da flor é entregar o mel à abelha.
Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida.
E para a flor, uma abelha é uma mensageira de amor.
E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber o prazer é uma necessidade e um êxtase. 
(...) nos vossos prazeres, imitai as flores e as abelhas.”

(Khalil Gibran)

domingo, 23 de novembro de 2014

Gargalhada...

Quando me disseste que não mais me amavas, 
e que ias partir, dura, precisa, bela e inabalável, 
com a impassibilidade de um executor, 
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias... 
Mas olhei-te bem nos olhos, 
belos como o veludo das lagartas verdes, 
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos, 
tive pena de ti, de mim, de todos, 
e me ri da inutilidade das torturas predestinadas, 
guardadas para nós, desde a treva das épocas, 
quando a inexperiência dos Deuses 
ainda não criara o mundo...


Guimarães Rosa.

domingo, 21 de setembro de 2014

Sinto-me como uma semente no meio do inverno...

"Sinto-me como uma semente no meio do inverno,
sabendo que a primavera se aproxima.
O broto romperá a casca e a vida que ainda dorme em mim
haverá de subir para a superfície, quando for chamada.
O silêncio é doloroso, mas é no silêncio que as coisas tomam forma,
e existem momentos em nossas vidas que 
tudo que devemos fazer é esperar.
Dentro de cada um, no mais profundo no ser,
está uma força que vê e escuta 
aquilo que não podemos ainda perceber.
Tudo o que somos hoje nasceu daquele silêncio de ontem.
Somos muito mais capazes do que pensamos.
Há momentos em que a única maneira de aprender
é não tomar qualquer iniciativa, não fazer nada.
Porque, mesmo nos momentos de total inação,
esta nossa parte secreta está trabalhando e aprendendo.
Quando o conhecimento oculto na alma se manifesta,
ficamos surpresos conosco mesmos,
e nossos pensamentos de inverno se transformam em flores,
que cantam canções nunca antes sonhadas.
A vida sempre nos dará mais do que achamos que merecemos".


Kahlil Gibran.

domingo, 31 de agosto de 2014

Amar é ouvir...

Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito…  A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados a solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato… O ato de falar é um ato masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido… Já o ato de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório.

Rubem Alves.
In: Quarto de Badulaques. p.20

domingo, 10 de agosto de 2014

Vossos filhos não são vossos filhos...

Vossos filhos não são vossos filhos, 
são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 
Vêm através de vós, mas não de vós. 
E embora vivam convosco, não vos pertencem. 
Podeis outorgar-lhes vosso amor, 
mas não vossos pensamentos. 
Porque eles têm seus próprios pensamentos. 
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 
Podeis esforçar-vos por ser como eles, 
mas não podem fazê-los como vós, 
Porque a vida não anda para trás 
e não se demora com os dias passados. 
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos 
são arremessados como flechas vivas. 
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito 
e vos estica com toda a sua força 
para que suas flechas se projectem rápido e para longe. 
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria; 
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, 
ama também o arco que permanece estável.


(Gibran Kahlil Gibran - O Profeta) 

sábado, 2 de agosto de 2014

Apenas...

Por aí, meus versos,
vidas soltas a planarem
feridas à esconder
sonhos dispersos...
Intimidades coesas
por seu olhar feérico,
pudesse eu, à encantaria.
Toda ausência,  sua presença,
inocência, essa onipotência.
Pudera, conceder-lhe
a fleuma dos poemas
e que você a entendesse 
como um arquétipo.
Apenas isso, nada mais...
Mas, sou um tolo
tentando lhe sensibilizar.

Marco Rocca.


 Ps. Todos os créditos reservados ao autor.