Nada começa: tudo
continua.
Onde estamos, que vemos
a passar?
O dia muda, lento, no
amplo ar;
Múrmura, em sombras,
flui a água nua.
Vêem de longe,
Só nosso vê-las teve
começar.
Em cadeias do tempo e do
lugar,
É abismo o começo e ausência,
Nenhum ano começa. É
eternidade!
Agora, sempre, a mesma
eterna idade.
Precipício de Deus sobre
o momento;
Na curva do amplo céu o
dia esfria,
A água corre mais
múrmura e sombria
E é tudo o mesmo e verbo
e pensamento.
"Ficção de que começa
alguma coisa!
Nada
começa: tudo continua.
Na
fluida e incerta essência misteriosa
Da
vida, flui em sombra a água nua.
Curvas
do rio escondem só o movimento.
O
mesmo rio flui onde se vê.
Começar
só começa em pensamento".
Fernando Pessoa.




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