sexta-feira, 18 de abril de 2014

É necessário abrir os olhos...

É necessário abrir os olhos 
e perceber que as coisas boas 
estão dentro de nós, 
onde os sentimentos 
não precisam de motivos 
nem os desejos de razão. 
O importante é aproveitar 
o momento e aprender 
sua duração, 
pois a vida está nos olhos 
de quem saber ver.

Gabriel Garcia Marquez.

domingo, 23 de março de 2014

O amor no éter...

Há dentro de mim uma paisagem 
entre meio-dia e duas horas da tarde. 
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,  
entram e não neste lugar de memória, 
uma lagoa rasa com caniço na margem. 
Habito nele, quando os desejos do corpo, 
a metafísica, exclamam: 
como és bonito! 
Quero escrever-te até encontrar 
onde segregas tanto sentimento. 
Pensas em mim, teu meio-riso secreto 
atravessa mar e montanha, 
me sobressalta em arrepios, 
o amor sobre o natural. 
O corpo é leve como a alma, 
os minerais voam como borboletas. 
Tudo deste lugar 
entre meio-dia e duas horas da tarde.

Adélia Prado.

domingo, 9 de março de 2014

A lucidez perigosa...

Estou sentindo uma clareza tão grande 
que me anula como pessoa atual e comum:  
é uma lucidez vazia, como explicar?  
Assim como um cálculo matemático perfeito  
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer   
vendo claramente o vazio.  
E nem entendo aquilo que entendo:  
pois estou infinitamente maior que eu mesma,  
e não me alcanço.
Além do que:  que faço dessa lucidez?  
Sei também que esta minha lucidez  
pode-se tornar o inferno humano 
– já me aconteceu antes.
– em termos de nossa diária 
e permanente acomodação 
resignada à irrealidade – 
essa clareza de realidade 
é um risco.
apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Clarice Lispector.

sábado, 1 de março de 2014

Tu eras também uma pequena folha...


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Minha vida não foi um romance...

Minha vida não foi um romance
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amar, não digas, que morro
De surpresa... de encanto... de medo...

Minha vida não foi um romance
Minha vida passou por passar
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance
Pobre vida... passou sem enredo
Glória a ti que me enches de vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso, de um gesto,  um olhar. 

Mario Quintana.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Peço Silêncio...

Agora, me deixem tranquilo.

Agora, se acostumem sem mim.

Eu vou fechar os olhos.

E só quero cinco coisas,

cinco fontes preferidas.

Uma é o amor sem fim.

O segundo é ver o outono.

Não posso ser sem que as folhas

vão e voltem a terra.

O terceiro é o grave inverno,

a chuva que amei, a carícia

do fogo no frio silvestre.

Em quarto lugar, o verão

redondo como uma melancia.

A quinta coisa são teus olhos,

Matilde minha, bem-amada,

não quero dormir sem teus olhos,

não quero ser sem que me olhes:

eu mudo a primavera 

porque tu me segues olhando.

Amigos, isso é o que quero.

É quase nada e quase tudo.

Agora, se querem podem ir.

Vivi tanto que um dia

terão que esquecer-me por força,

apagando-me do quadro:

Meu coração foi interminável.

Mas, por que peço silêncio

não creiam que vou morrer-me:

me passa todo o contrário:

acontece que vou viver-me.

Acontece que sou e que sigo.

Não será, pois, só que aqui dentro

de mim cresceram cereais,

primeiro os grãos que rompem

a terra para ver a luz,

mas a mãe-terra é escura:

e dentro de mim sou escuro:

sou como um poço em cujas águas

a noite deixa suas estrelas

e segue só pelo campo.

Se trata de que tanto vivi

que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,

nunca tive tantos beijos.

Agora, como sempre, é cedo.

Voa a luz com suas abelhas.

Deixem-me só com o dia.

Peço permissão para nascer.


Pablo Neruda.

sábado, 21 de dezembro de 2013

O que me dói...

O que me dói não é 
O que há no coração 
Mas essas coisas lindas 
Que nunca existirão... 
São as formas sem forma 
Que passam sem que a dor 
As possa conhecer 
Ou as sonhar o amor.
 São como se a tristeza 
Fosse árvore e, uma a uma, 
Caíssem suas folhas 
Entre o vestígio e a bruma. 

Fernando Pessoa.