quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Abelha e flor...

"Ide, pois, aos vossos campos e pomares
 e, lá, aprendereis que o prazer da abelha
 é sugar o mel da flor, 
mas que o prazer da flor é entregar o mel à abelha.
Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida.
E para a flor, uma abelha é uma mensageira de amor.
E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber o prazer é uma necessidade e um êxtase. 
(...) nos vossos prazeres, imitai as flores e as abelhas.”

(Khalil Gibran)

domingo, 23 de novembro de 2014

Gargalhada...

Quando me disseste que não mais me amavas, 
e que ias partir, dura, precisa, bela e inabalável, 
com a impassibilidade de um executor, 
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias... 
Mas olhei-te bem nos olhos, 
belos como o veludo das lagartas verdes, 
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos, 
tive pena de ti, de mim, de todos, 
e me ri da inutilidade das torturas predestinadas, 
guardadas para nós, desde a treva das épocas, 
quando a inexperiência dos Deuses 
ainda não criara o mundo...


Guimarães Rosa.

domingo, 21 de setembro de 2014

Sinto-me como uma semente no meio do inverno...

"Sinto-me como uma semente no meio do inverno,
sabendo que a primavera se aproxima.
O broto romperá a casca e a vida que ainda dorme em mim
haverá de subir para a superfície, quando for chamada.
O silêncio é doloroso, mas é no silêncio que as coisas tomam forma,
e existem momentos em nossas vidas que 
tudo que devemos fazer é esperar.
Dentro de cada um, no mais profundo no ser,
está uma força que vê e escuta 
aquilo que não podemos ainda perceber.
Tudo o que somos hoje nasceu daquele silêncio de ontem.
Somos muito mais capazes do que pensamos.
Há momentos em que a única maneira de aprender
é não tomar qualquer iniciativa, não fazer nada.
Porque, mesmo nos momentos de total inação,
esta nossa parte secreta está trabalhando e aprendendo.
Quando o conhecimento oculto na alma se manifesta,
ficamos surpresos conosco mesmos,
e nossos pensamentos de inverno se transformam em flores,
que cantam canções nunca antes sonhadas.
A vida sempre nos dará mais do que achamos que merecemos".


Kahlil Gibran.

domingo, 31 de agosto de 2014

Amar é ouvir...

Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito…  A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados a solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato… O ato de falar é um ato masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido… Já o ato de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório.

Rubem Alves.
In: Quarto de Badulaques. p.20

domingo, 10 de agosto de 2014

Vossos filhos não são vossos filhos...

Vossos filhos não são vossos filhos, 
são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 
Vêm através de vós, mas não de vós. 
E embora vivam convosco, não vos pertencem. 
Podeis outorgar-lhes vosso amor, 
mas não vossos pensamentos. 
Porque eles têm seus próprios pensamentos. 
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 
Podeis esforçar-vos por ser como eles, 
mas não podem fazê-los como vós, 
Porque a vida não anda para trás 
e não se demora com os dias passados. 
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos 
são arremessados como flechas vivas. 
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito 
e vos estica com toda a sua força 
para que suas flechas se projectem rápido e para longe. 
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria; 
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, 
ama também o arco que permanece estável.


(Gibran Kahlil Gibran - O Profeta) 

sábado, 2 de agosto de 2014

Apenas...

Por aí, meus versos,
vidas soltas a planarem
feridas à esconder
sonhos dispersos...
Intimidades coesas
por seu olhar feérico,
pudesse eu, à encantaria.
Toda ausência,  sua presença,
inocência, essa onipotência.
Pudera, conceder-lhe
a fleuma dos poemas
e que você a entendesse 
como um arquétipo.
Apenas isso, nada mais...
Mas, sou um tolo
tentando lhe sensibilizar.

Marco Rocca.


 Ps. Todos os créditos reservados ao autor.

sábado, 10 de maio de 2014

Poema à boca fechada...

Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
 
Calado estou, calado ficarei,
 
Pois que a língua que falo é de outra raça.
 
Palavras consumidas se acumulam,
 
Se represam, cisterna de águas mortas,
 
Ácidas mágoas em limos transformadas,
 
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
 
Não direi:
 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
 
Palavras que não digam quanto sei
 
Neste retiro em que me não conhecem.
 
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
 
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
 
No negro poço de onde sobem dedos.
 
Só direi,
 
Crispadamente recolhido e mudo,
 
Que quem se cala quando me calei
 
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago.