segunda-feira, 9 de julho de 2012

Quem morre?...

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o preto no branco
e os pingos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz
com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se
da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ah, o coração...

Acho uma pena que falar em coração tenha se tornado uma coisa tão antiga. Mas o fato é que tornou-se. Coração dilacerado, coração em pedaços, coração na mão… Sentimos tudo isso, mas a verbalização soa piegas.
E, no entanto, estamos falando dele, do nosso órgão mais vital, do nosso armazenador de emoções, do mais forte opositor do cérebro, este sim, em fase de grande prestígio.
O que está em alta? Inteligência, raciocínio, lógica, perspicácia!
Gostamos de pessoas que pensam rápido, que são coerentes, que evoluem, que fazem os outros rirem com suas ironias e comentários espertos. Toda essa eficiência só corre risco de desandar quando entra em cena o inimigo número 1 do cérebro: o coração.
É o coração que faz com que uma supermulher independente derrame baldes de lágrimas por causa de uma discussão com o namorado. É o coração que faz com que o empresário que precisa enxugar a folha de pagamento relute em demitir um pai de família. É o coração que faz com que todos tremam seus queixinhos quando o Faustão põe no ar o quadro arquivo confidencial!
Eu gostaria que o coração fosse reabilitado, que a simples menção dessa palavra não sugerisse sentimentalismo barato, mas para isso é preciso tratá-lo com o mesmo respeito com que tratamos o cérebro, e com a mesma economia.
Se a expressão “beijo no coração” é considerada “over”, voltemos a ser simples.
Mandemos beijos e abraços sem determinar onde; quem os receber, tratará de senti-los no local adequado.


Martha Medeiros.

domingo, 17 de junho de 2012

Aprendi a escrever lendo...

Aprendi a escrever lendo, da mesma forma
que se aprende a falar ouvindo. Naturalmente,
quase sem querer, numa espécie de método
subliminar. Em meus tempos de criança, era
aquela encantação. Lia-se continuamente e
avidamente um mundaréu de história
(e não estórias) principalmente as do Tico-Tico.
Mas lia-se corrido, isto é, frase após frase,
do princípio ao fim.
Ora, as crianças de hoje não se acostumam a ler corretamente, porque apenas olham as figuras
dessas histórias em quadrinhos, cujo “texto” se
limita a simples frases interjetivas e assim mesmo
muita vez incorretas. No fundo, uma fraseologia de guinchos e uivos, uma subliteratura de homem das cavernas.
Exagerei? Bem feito! Mas se essas crianças, coitadas, nunca adquiriram o hábito da leitura, como saberão
um dia escrever?

Mario Quintana.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Penetrália...

Falei tanto de amor!... de galanteio,
Vaidade e brinco, passatempo e graça,
Ou desejo fugaz, que brilha e passa
No relâmpago breve com que veio...
O verdadeiro amor, honra e desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao público recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.


Não proclamei os nomes, que baixinho,
Rezava... E ainda hoje, tímido, mergulho
Em funda sombra o meu melhor carinho.
Quando amo, amo e deliro sem barulho;
E quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.

Olavo Bilac.

domingo, 27 de maio de 2012

Dentro de um abraço...

Onde é que você gostaria de estar agora,
nesse exato momento? (...)Meu palpite:
dentro de um abraço.
(...)O rosto contra o peito de quem te abraça,
as batidas do coração dele e as suas, o silêncio
que sempre se faz durante esse envolvimento físico:
nada há para se reivindicar ou agradecer,
dentro de um abraço voz humana nenhuma
se faz necessária, está tudo dito.
Que lugar no mundo é melhor para se estar?
Na frente de uma lareira com um livro estupendo,
em meio a um estádio lotado vendo seu time golear,
num almoço em família
onde todos estão se divertindo,
num final de tarde à beira-mar,
deitado num parque olhando para o céu,
na cama com a pessoa que você mais ama?
Difícil bater essa última alternativa,
mas onde começa o amor
senão dentro do primeiro abraço?
Alguns o consideram como algo sufocante,
querem logo se desvencilhar dele.
Até entendo que há momentos em que é preciso
estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo.
Esse desejo de se manter solto é legítimo.
Mas hoje me permita não endossar
manifestações de alforria.
Entrando na semana dos namorados recomendo
fazer reserva num local aconchegante
e naturalmente aquecido:
dentro de um abraço que te baste.

Martha Medeiros.

In: Feliz por nada. P.12.

domingo, 13 de maio de 2012

Biografia...

Escreverás meu nome com todas as letras
Com todas as datas, e não serei eu.
Repetirás o que me ouviste, o que leste de mim
E mostraras meu retrato, e nada disso serei eu
Dirás coisas imaginárias, invenções sutis
Engenhosas teorias, e continuarei ausente.
Somos uma difícil unidade
De muitos instantes mínimos, isso serei eu.

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
Aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente
- Como me poderão encontrar? 
 Novos e antigos todos os dias,
Transparentes e opacos, segundo o giro da luz
- nós mesmos nos  procuramos. 
 E por entre as circunstâncias fluímos,
Leves e livres como a cascata pelas pedras.           
- Que metal nos poderia prender?

Cecília Meireles.

domingo, 6 de maio de 2012

Rosto com dois perfis...

“Já não procuro a palavra exata
que me pudesse explicar:
ando pelos contornos
onde todos os significados
são sutis, são mortais.
Não busco prender o momento
belo: quero vivê-lo sempre mais
com a intensidade que exige a vida,
com o desgarramento do salto
e da fulguração.
E me corto ao meio e me solto
de mim, duplo coração:
a que vive, a que narra,
a que se debate e a que voa
- na loucura que redime da lucidez”.

Lya Luft.