Eu te peço perdão por te amar de repente...
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma,
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias,
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.
Vinícius de Moraes.
Leve… – Pluma… Surdina… Aroma… Graça…
Qualquer coisa infinita… Amor… Pureza…
Cabelo em sombra, olhar ausente, passa
como a bruma que vai na aragem presa…
Silenciosa. Imprecisa. Etérea taça
em que adormece luar… Delicadeza…
Não se diz… Não se exprime… Não se traça…
Fluido… Poesia… Névoa… Flor… Beleza…
Passa… – É um morrer de lírios… Olhos quase
fechados… Noite… Sono… O gesto é gaze
a estender-se, a alargar-se… – E enquanto vão
fugindo aos passos teus, Visão perdida,
chovem rosas e estrelas pela vida…
Silêncio! Divindade! Iniciação!
Cecília Meireles
Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo
sem ritmo na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos
rítmicos move-se em mim.
Eles dizem-me no seu despertar:
"Tu e o mundo em que vives
não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."
E no meu sonho eu respondo-lhes:
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam
de grãos de areia sobre a minha margem."
Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"
Gibran Khalil Gibran.
Para entender uma mulher
é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa
que se possa prever nossa vã pretensão…
Para possuir uma mulher
é preciso mais do que fazê-la
sentir-se em êxtase
numa cama, em uma seda,
com toda viril possibilidade…
Há de se conseguir fazê-la sorrir
antes do próximo encontro
Para conhecer uma mulher,
mais que em seu orgasmo,
tem de ser mais que amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair,
e fazer da saudade e das lembranças,
todo sorriso…
- O potente, o amante, o homem viril,
são homens bons…
bons homens de abraços e passos firmes…
bons homens pra se contar histórias…
Há, porém, o homem certo,
de todo instante: O de depois!
Para conquistar uma mulher,
mais que ser este amante,
há de se querer o amanhã,
e depois do amor
um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis é menor
do que o que não se deve perder.
É esperar amanhecer,
e nem lembrar do relógio ou café…
Há que ser mulher,
por um triz e, então, ser feliz!
Para amar uma mulher, mais que entendê-la,
mais que conhecê-la, mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus,
e merecer um sorriso escondido,
e também ser possuído e,
ainda assim, também ser viril…
Para amar uma mulher,
mais que tentar conquistá-la,
há de ser conquistado…
todo tomado e, com um pouco de sorte,
também ser amado!"
Carlos Drummond de Andrade.
"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes, apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."
Carlos Drummond de Andrade.
Todo ano é a mesma coisa: você chega,
fica aqui três dias e aí vai embora.
Volta um ano depois, todo animadinho,
querendo me levar para a gandaia.
Olha, honestamente, cansei.
Seus amigos, bando de mascarados,
defendem você. Dizem que sempre foi assim,
festeiro, brincalhão, mas que no fundo é
supertradicional, de raízes cristãs,
e só quer tornar as pessoas mais felizes.
Para mim? Carnaval, desengano...
Você recorre à sua origem popular
e incentiva essas fantasias nas pessoas,
de que você é o máximo, é pura alegria,
mas não passa de entrudo mal-intencionado,
um folguedo, que nunca viu um dia de trabalho na vida.
Acha-se a coisa mais linda do mundo e é cafonice pura.
Vive desfilando pelas ruas, junto com os bêbados,
relembrando o passado. Chega a ser triste.
Carnaval, você tem um chefe gordo e bobalhão
que se acha um rei, mas não manda em nada.
Nunca teve um relacionamento duradouro.
Basta chegar perto de você e temos que agüentar
aquelas fotos de mulheres nuas, que são
o seu grande orgulho.
Você não tem vergonha, não?
Sei que as pessoas adoram você, Carnaval,
mas eu estou cansada dos seus excessos e
dessa sua existência improdutiva.
Seja menos repetitivo, proponha algo novo.
Desde que o conheço, você gosta das mesmas músicas.
Gosta de baile. Desculpa, mas estou pulando fora.
Será que essa sua alegria toda não é
para esconder alguma profunda tristeza?
Será que você canta para não chorar?
Tentei, várias vezes, abordar essas questões,
e você sempre mudou de assunto.
Ora, chega dessa loucura. Reconheça que você
se esconde atrás de uma dupla personalidade.
Cada vez mais e mais pessoas ficam incomodadas
com essa sua falsa euforia, fique sabendo.
Conheço várias que fogem, querendo distância
das suas brincadeiras. Você oprime todo mundo
com esse seu deslumbramento excessivo
diante das coisas, sabia?
Por exemplo, essa sua mania de camarote.
Onde os vips podem suar sem que isso pareça nojento.
Onde se pode falar torto sem que seja errado.
Todos vestidos de uniforme, senão não entram.
Todos doidos para passar a mão na bunda um do outro.
Essa é a sua idéia de curtir a vida?
Menos purpurina, Carnaval. Menos bundas,
menos dentes para fora. A vida é linda, mas a
“lindeza do lindo mais lindo que há no lindíssimo”
é um saco.
Um pouco de calma e autocrítica nunca fez mal a ninguém.
Tudo muda no mundo –
por que você insiste em continuar o mesmo?
A harmonia vem da evolução, não das alegorias.
Chegou a hora de rodar a baiana
para não atravessar na avenida.
Como será amanhã? Responda quem puder.
Fernanda Young
Então você está confusa com seus sentimentos.
Ele apareceu tão de repente na sua vida,
com aquele brilho manso no olhar,
com aquela meiguice na voz,
sem pedir coisa alguma,
meio como um Pequeno Príncipe caído de um asteróide.
A princípio você nada percebeu de diferente
O susto veio quando você se lembrou
das palavras da raposa,
explicando ao Pequeno Príncipe o que era ficar cativo:
É assim. A princípio você senta lá e eu aqui.
Depois a gente vai ficando cada vez mais perto.
Os passos de todos os homens
me fazem entrar dentro da minha toca.
Mas os seus passos me fazem sair.
E, depois, é a alegria.
Começo a ficar alegre e a me preparar na segunda-feira,
sabendo que você só virá na sexta.
Rubem Alves
In:Um céu numa flor silvestre