quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ela é assim...

Ela é assim! Pronto.Mas assim como? Explica!
Ela é assim um mix de tudo que se possa imaginar dentro de uma grande capacidade de apenas não ser nada em definitivo. Ela é aquilo que não consegue se encaixar em moldes pré-existentes, parece que ninguém nunca foi antes dela. Ela se incomoda com isso, às vezes, muito. Ela é cheia de sentimentos, parece que suas experiências se manifestam é no dorso do seu colo, e quase sempre, de vez em quando, tudo isso pesa. Mas não tem modo, não existe maneira que a faça ser diferente. E ainda, graças a Deus, ela é diferente. Algo que pesa e que tem o dom da leveza, algo que chora e que se manifesta em sorrisos, algo de forte, mas que se desmancha quando encontra a água.'

Clarice Lispector.

sábado, 6 de outubro de 2012

Os candidatos são todos iguais?

Época de eleição é época de emoção. A razão entra em férias, a sensibilidade fica à flor da pele. Em família e no trabalho, todos manifestam opiniões sobre eleições e candidatos.
O tom das opiniões varia do palavrão (a desqualificar toda a árvore genealógica do candidato) à veneração acrítica de quem o julga perfeito. Marido briga com a mulher, pai com o filho, amigo com amigo, cada um convencido de que possui a melhor análise sobre os candidatos…
Um terceiro grupo insiste em se manter indiferente ao período eleitoral, embora não o consiga em relação aos candidatos, todos eles considerados corruptos, mentirosos, aproveitadores e/ou demagogos.
Não há saída: estamos todos sujeitos ao Estado. E este é governado pelo partido vitorioso nas eleições. Portanto, ficar indiferente é passar cheque em branco, assinado e de valor ilimitado, a quem governa. Governo e Estado são indiferentes à nossa indiferença e aos nossos protestos individuais.
É compreensível uma pessoa não gostar de ópera, jiló ou cor marrom. E mesmo de política. Impossível é ignorar que todos os aspectos de nossa existência, do primeiro respiro ao último suspiro, têm a ver com política.
A classe social em que cada um de nós nasceu decorre da política vigente no país. Houvesse menos injustiça e mais distribuição da riqueza, ninguém nasceria entre a miséria e a pobreza. Como nenhum de nós escolheu a família e a classe social em que veio a este mundo, somos todos filhos da loteria biológica. O que não deveria ser considerado privilégio por quem nasceu nas classes média e rica, e sim dívida social para com aqueles que não tiveram a mesma sorte.
Somos ministeriados do nascimento à morte. Ao nascer, o registro segue para o Ministério da Justiça. Vacinados, ao da Saúde; ao ingressar na escola, ao da Educação; ao arranjar emprego, ao do Trabalho; ao tirar habilitação, ao das Cidades; ao aposentar-se, ao da Previdência Social; ao morrer, retorna-se ao Ministério da Justiça. E nossas condições de vida, como renda e alimentação, dependem dos ministérios da Fazenda e do Planejamento.
Em tudo há política. Para o bem ou para o mal. A política se faz presente até no calendário. Já reparou: dezembro, último mês do ano, deriva de dez? Novembro de nove, outubro de oito, setembro de sete?
Outrora o ano tinha dez meses. O imperador Júlio César decidiu acrescentar um mês em sua homenagem. Criou julho. Seu sucessor, Augusto, não quis ficar atrás. Criou agosto. Como os meses se sucedem na alternância 31/30, Augusto não admitiu que seu mês tivesse menos dias que o do antecessor. Obrigou os astrônomos da corte a equipararem agosto e julho em 31 dias. Eles não se fizeram de rogados: arrancaram um dia de fevereiro e resolveram a questão.
O Brasil é o resultado das eleições de outubro. Para melhor ou para pior. E os que o governam são escolhidos pelo voto de cada eleitor.
Faça como o Estado: deixe de lado a emoção e pense com a razão. As instituições públicas são movidas por políticos e pessoas indicadas por eles. Todos os funcionários são nossos empregados. A nós devem prestar contas. Temos o direito de cobrar, exigir, reivindicar, e eles o dever de responder às nossas expectativas.
A autoridade é a sociedade civil. Exerça-a. Não dê seu voto a corruptos nem se deixe enganar pela propaganda eleitoral. Vote no futuro melhor de seu município. Vote na justiça social, na qualidade de vida da população, na cidadania plena.

Frei Betto.

domingo, 30 de setembro de 2012

Viração...

Voa um par de andorinhas, fazendo verão.
E vem uma vontade de rasgar velhas cartas,
velhos poemas, velhas contas recebidas.
Vontade de mudar de camisa,
por fora e por dentro... Vontade...
para que esse pudor de certas palavras?...
vontade de amar, simplesmente.

Mário Quintana.

sábado, 22 de setembro de 2012

Aquilo que creio...

Aquilo que, creio,
produz em mim o sentimento profundo,
em que vivo, de incongruência com os outros,
é que a maioria pensa com a sensibilidade,
e eu sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver
e pensar é saber viver.
Para mim, pensar é viver
e sentir não é mais
que o alimento de pensar."

Fernando Pessoa.

sábado, 15 de setembro de 2012

Quando eu for...

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar)

E talvez de meu repouso...

Mario Quintana.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O que eu adoro em ti...

O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!

Manuel Bandeira.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Cotidiano...

 O cotidiano transforma horas vagas, em deveres.
 Na longa marginal, suor, olhar alheio, marcha lenta...
 Abro o porta-luvas, dentro, um Quintana me orienta:
“A vida é uma tarefa que eu levo para fazer em casa."

Sigo reto, freio, reduzo, vejo luzes... Entre mil afazeres...
Desprendo-me do silêncio, emanando impropérios
                                                                         pelos cruzamentos.
Deste modo, quando em mim, revejo o passado em asas...
Sei que menino, planejei vôos altos, deslumbramento.

A  cada esquina, um filho parido abre os olhos,
nas mãos humildes, alegria parca, numa moeda como esmola.
A hora do rush é um suplício, peso nos ombros, cansaço...
Coço a vista, fome, rotina, enfado.
                                                                   ...Este engarrafamento...

Ouço, o que a vida tinha me reservado para [às SEIS] da tarde
Lá fora, todas as pessoas movem-se em busca do prazer...
Insistente, você me liga e diz sem demora o que está acontecendo...
Eu nunca entendo o que você tenta me dizer, assim, exatamente...

Apenas ouço em sua ligação: - Que meu filho irá nascer!!!
Posso não entender o mundo, sequer a vida. Destino, sobretudo.
Posso não ser um (deus), mas a escuto como letra de música,
                                                                          [que suavemente invade...]
E sinto em meu sangue, 
                      um turbilhão de vida, renovar-se agora,
                                                                           tão pleno e explicitamente...

Marco Rocca.


Amigos é com grande prazer que compartilho com vocês essa prosa
poética, feita pelo amigo Marco Rocca em parceria com seu amigo Lou James! Eu acompanho o trabalho dele há algum tempo através do blog Versos em horas e no Recanto das Letras.

Obrigada Marco! Adorei compartilhar um pouco desse seu sentir!!! E sempre que quiser prosear sua poesia, esse Cantinho estará aberto pra você!