domingo, 10 de março de 2013

Domingo é dia de ecos quentes...

 Domingo é dia de ecos quentes, secos,
e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas,
gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas - de onde vêm os ecos de domingo?
Eu que detesto domingo por ser oco.

Clarice Lispector.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um dia perfeito...

Hoje queria um dia
feito de horas de oferecer.
Porque há dias diferentes.
Dias especiais
em que queremos encomendar o sol,
a luz do horizonte, a doçura do ar.
Queria oferecer um dia hoje.
Um dia perfeito.
Embrulhado em momentos guardados.
Talvez com uma fita cor de certeza
calma, e um laço pleno de voltas cúmplices.
Só um dia.
Dado assim...

Mário Quintana

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Para ler poesia...

Não basta saber ler para ler poesia.
Ler poesia é uma arte. Exige que o leitor
se coloque numa posição especial de alma.
O segredo da poesia está na música da leitura.
Mais do que uma arte: é um ato de bruxedo.
O leitor invoca um mistério que se encontra
nos interstícios das palavras do poeta.
Essas palavras estão dentro dele mesmo.
O poema faz-me ouvir um poema que está
dentro de mim.
Esse poema que está dentro de mim é
um pedaço do mim.
Muitas pessoas têm hábitos suínos de leitura.
Lêem como os porcos devoram a lavagem.
Tudo é igual, não há pausas, tudo com pressa.
Romain Rolland se referia a um sentimento que ele não tinha, mas não podia descrever, pelo que lhe deu o nome de “sentimento oceânico”.
Você já experimentou ficar boiando no mar?
O corpo todo solto, sem fazer nada, nenhum movimento,
subindo e descendo ao sabor das ondas?
Pois é assim que se lê poesia: flutuando ao sabor das palavras, sem pressa, em voz alta, poesia é música.
São falas do coração. Por favor: não tente entender.
Música não é para ser entendida. é para ser ouvida.
Poesia não é para ser entendida.
É para ser lida em voz alta.

Rubem Alves.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A passagem das horas...

Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco
 – não sei qual – e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos,
todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse
querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção,
o choque, a válvula, o espasmo“.

Álvaro de Campos.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Futuro...

"Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo...
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
O mistério da morte a mim o liga
Ao brutal fim do meu poema".

Álvaro de Campos.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Noções...

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar,
e investiga o elemento que a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas
que não se encontram.
Virei-me sobre a minha própria experiência,
e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é minha alma: qualquer coisa
que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano
sobre a areia passiva e inúmera...


Cecília Meireles.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sentir...

Sentir tudo de todas as maneiras, Viver tudo de todos os lados, Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo. Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo, Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo, Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia, Seja uma flor ou uma idéia abstrata, Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus. E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.”

Álvaro de Campos.